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[Conto] Despedidas Acaloradas

 A corneta soou, anunciando a chegada de algo. Todos os homens se levantaram, chutando os bêbados ou dorminhocos dos seus lados, e se posicionaram, armas em mãos. As quase três dúzias de soldados aguardaram, parados sob o sol poente, ansiosos por detalhes. As batalhas haviam acabado, e eles já se preparavam para voltar para casa. Não demorou muito para saberem que não havia inimigos. Pelo contrário, na verdade. Um companheiro retornava.

John Doe fora capturado no início da campanha. Não tinha patente, não tinha família e nem dinheiro. Sua vida não valia de nada para os captores. Todo o batalhão imaginava que, a este ponto, o jovem já estivesse morto. Mas cá estava, retornando juntamente com os batedores do dia.

O jovem estava envolto em uma capa, agarrando-se ao tecido como se fosse a saia de sua mãe. Por baixo do capuz que usava, estava pálido e tinha expressão vazia. Ao ser trazido para o acampamento, todos que o viam tentavam imaginar os horrores pelo qual ele passou nas mãos dos captores.

A última batalha fora complicada. O esquadrão inimigo era famoso por sua eficiência e domínio da arte da guerra. Os mais poetas os comparavam a predadores perfeitos e máquinas de matar. Claro que isso ajudava a inflar o ego dos ali presentes, que conseguiram enfrentar de igual para igual os famosos adversários. Houveram poucas baixas e um capturado.

Ele  foi inundado de perguntas e o sargento precisou ameaçar com buracos de balas alguns homens para que o espaço fosse dado. Todos estavam empolgadamente curiosos. Mas as perguntas ficaram sem respostas por enquanto.

O médico do batalhão examinou como pôde o jovem catatônico, encontrando ferimentos leves mas nada mais grave. O corpo, até onde era possível avaliar, estava saudável. A preocupação estava com a mente.

Quando perceberam que não tirariam nada do jovem, e que ele estava abalado demais para interagir de qualquer forma, a multidão se dispersou. O sargento deixou o relatório para o outro dia e foi descansar em sua barraca.

Um prato de ensopado e pão foi dado ao jovem, mas permaneceram intocados. Doe não abria a boca nem para respirar, e o ar raspava suas narinas em uma respiração alta e inconstante.

Doe permaneceu sentado no mesmo lugar até o anoitecer. A dupla de sentinelas não o viu ir deitar ou tocar na comida, que já havia esfriado a muitas horas. Desta, um conhecera Doe no exército e o chamava de amigo, arriscou uma aproximação. Uma garrafa de álcool forte tiraria uma reação, nem que fosse enjôo.

Ele se aproximou de Doe e esticou o braço, oferecendo a garrafa, de onde o vapor alcoólico escapava rapidamente. Suas esperanças não eram grandes e, após alguns segundos, desistiu da tentativa. O que ele não esperava é que, quase sem anúncio nenhum e com força e velocidade, Doe agarrasse seu braço. O movimento brusco o assustou mas, após alguns segundos de imobilidade e silêncio constrangedor, nada mais veio do amigo. Seu companheiro sentinela observava, curioso e atento, a alguns metros de distância.

“Uh, Doe? Aceita um trago?”

John Doe, recém de volta ao seu batalhão, fitou o antigo companheiro com olhos vermelhos, a pupila transformada em um filete no centro do globo ocular.

O sentinela, espantado, forçou o braço para fora do agarrão mas não tinha força suficiente. Doe, narinas dilatadas, aproximou o rosto do pulso do soldado e sentiu o aroma. Ele salivava e sorria instintivamente, exibindo as presas em que haviam se tornado os seus dentes. Ao fitar aquele rosto que, em fração de segundo, passara do jovem soldado ao retorcido de uma fera humana, o sentinela se sentiu como uma presa capturada nas garras do predador prestes a ser devorada viva. E gritou.

Junto do grito veio a mordida. Doe, boca arreganhada de forma inumana, deu uma única abocanhada. Sua mandíbula rompeu pele, músculo e osso, separando a mão da sentinela de seu braço, fazendo um jorro de sangue cruzar o ar noturno e encharcar os dois. O sentinela, berrando de dor, caiu ao chão, tropeçando em seu próprio desespero, e chorou, antes de morrer, ao ver suas próprias tripas. Mais sangue na noite e vapor chiou da carne na noite fria, como de uma refeição quente.

Os homens, acordados pelo barulho, saíram das barracas, sacos de dormir e casacos esticados no chão. A segunda sentinela, vendo toda a cena, atirou em Doe e os demais presentes viram como a bala, mesmo com toda a força gerada pela explosão que a impulsionava, rasgou as roupas mas apenas ricocheteou na pele da besta humana.

Quem não viu foi o atirador. A nuvem de fumaça encobriu o seu rosto, visão à qual se acostumou durante as escaramuças com mosquetes. O que jamais vira foi, como se cruzando uma densa névoa que separa o mundo mortal e o dos monstros, a criatura que agora o agarrava. A força do abraço quebrava seus ossos e as presas perfuravam seu pescoço.

Os breves segundos de violência explosiva deixaram todos paralisados. Os primeiros a expulsar o medo das pernas correram para seus mosquetes enquanto Doe devorava seu companheiro. Outros tentaram fugir, deixando tudo para trás.

John Doe, mais vivo do que nunca, sentia a adrenalina em seu sangue, a fome em sua barriga e todos os seus sentidos ampliados. Ergueu a cabeça e urrou, chamando por seus irmãos, e todos ali ouviram as dezenas de vozes respondendo ao chamado das sombras da noite. E foi nesse momento que perceberam que ninguém voltaria para casa. Os predadores haviam chegado.

***

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