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[Conto] A Guerreira e a Ninfa

Aretha caminhava apressada pela trilha tão familiar para ela. Já fizera aquele caminho tantas vezes que mal conseguia lembrar de todos os presentes que trouxera em cada ocasião. O mais recente pendia do gancho em seu cinto. As passadas largas que ela dava faziam com que a cabeça d’O Monge balançasse repetidamente, se chocando contra sua coxa. A sensação, agora tão comum a ela, ampliava a expectativa do reencontro vindouro.

Não demorou muito para que as árvores altas e grossas abrissem espaço para a cabana simples que se escondia na floresta. Aretha piscou sob a luz do sol que agora alcançava com facilidade seus olhos, e limpou as botas da sujeira do caminho na entrada da casa.

Suas mãos, calejadas por dezenas de combates, cheiravam a ervas e óleos que aplicava para tratar as bolhas, e seus cabelos, há poucos dias endurecidos por sangue e lama, agora caíam penteadas sobre os ombros.

Dentro da construção de madeira ela foi recepcionada pela visão que a motivava a lutar. Sentada sobre a cama estava Nyaliam. O vestido leve caía sobre o corpo, marcando seus movimentos, o que fazia parecer que ela flutuava, e o tecido só não era mais fino e delicado que sua pele. Pele esta que, nas sombras do casebre, parecia emitir luz própria, servindo de farol para o olhar da guerreira.

Nyaliam sorriu ao perceber Aretha. Um sorriso estreito, de canto, como se esperando algo que o motivasse a se abrir. A curva sutil daqueles lábios espetava Aretha mais forte que qualquer arma jamais o fizera, e a deixava sem fôlego para sequer conseguir respirar adequadamente.

“Nya! Lhe trouxe mais um, como pediu.” a guerreira exclamou, apresentando para a amada O Monge. “Como está? Já faz tantos dias! Caminhei o mais rápido que pude para vê-la.”

“Estou exatamente como da última vez, Aretha. E te esperei ansiosamente, não faz ideia.” disse a ninfa, descendo da cama e caminhando empolgadamente para a cabeça d’O Monge, exposta no chão.

Ela a pegou entre suas mãos e observou a expressão serena que ficou marcada no rosto no momento da morte. O Monge era o lutador mais ágil das montanhas. Seus pés rápidos como o vento eram conhecidos de norte a sul, e os punhos, mortais como um bote de serpente, de leste a oeste. Poucos ousavam o desafiar, e por isso Nyaliam estava tão excitada com o novo item.

“É maravilhoso, amei o presente! Você foi incrível como sempre, Aretha!” a guerreira, rosto vermelho e quente pelo elogio, mal conseguiu agradecer e apenas observou enquanto Nya caminhava com seus pés descalços para a estante atrás da sua cama. Ela subiu no colchão e, se equilibrando nas pontas dos pés, posicionou a cabeça decepeada no espaço reservado no centro.

Ao lado estavam O Príncipe e A Bárbara. O primeiro, expressão de descrença no rosto, era herdeiro de terras e riquezas, treinara a vida toda na arte da espada e do duelo. Cauteloso e observador, lâmina nenhuma conseguia tocá-lo, e seus olhos aguçados não perdiam uma abertura, por menor que fosse. Seu contra-ataque era feroz. A outra, face dura em fúria descontrolada, era uma montanha de músculos e vigor. Sobrevivera a ferimentos que poderiam matar um animal de grande porte. Decepava membros sem esforço e não temia um inimigo, sua confiança tão grande quanto seu machado. Agora ambos descansavam ali, juntos de vários outros presentes, também derrotados por Aretha e sua espada.

Aretha observou por muito tempo enquanto Nya admirava os troféus. Cada cabeça ali exposta valia pilhas de ouro, admiração e glória infinita onde quer que fosse, mas a garota em frente a elas tornava tudo isso insignificante.

A guerreira se lembrava do dia que conhecera a ninfa. Ela caminhava pela floresta, sem rumo, com uma espada recém adquirida. Sendo filha de soldado, sabia o básico sobre o combate e, confiando nas histórias dos bardos viajantes, decidiu se tornar uma aventureira. Ela conhecia a ideia - viajar por aí, enfrentar desafios e vender suas habilidades. Se tivesse sorte pegaria um contrato muito bom para salvar uma princesa esquecida ou encontraria uma tumba abandonada cheia de jóias e moedas. Mas o que encontrou em sua primeira aventura foi algo muito mais maravilhoso.

Por destino, sorte ou magia, ela encontrou a cabana. Entrou desconfiada e dentro teve a visão que mudou sua vida. Nya deitava entediada, olhando para o teto e, quando a ninfa se levantou para recepcioná-la, Aretha pensou que a beleza da garota eclipsava o sol e fazia da lua um vagalume. Até hoje não tinha certeza se fora alvo de um encantamento ou outra bruxaria, e pouco se importava. O que era o amor se não o mais poderoso dos feitiços.

A ninfa era brincalhona, provocativa e empolgada. Percebendo que a guerreira carregava uma espada velha, e estava perdidamente encantada, não resistiu a propor um desafio. Nya, dissera a própria, não conseguia deixar o local e muito menos lutar. Assim sendo, não poupava admiração por aquelas que o faziam. Aretha deveria matar O Bandido, rufião local, e trazer a cabeça como presente. Ela poderia conceder à desafiada a bênção faérica em sua arma, para que a cabeça daqueles mortos por ela se mantivesse intacta.

Aretha aceitou o desafio, desesperada para impressionar a ninfa, e correu para fora da cabana. Descobriu então que a estrutura desaparecia assim que a deixava, retornando apenas quando o presente era adquirido. Nya explicou que tal efeito se dava graças à magia que a envolvia e prendia ali. “É como as coisas são para nós, querida.” dissera Nya “Mesmo que permaneça, assim que virar as costas ou cochilar tudo irá desaparecer. Mas continue a trazer os presentes e poderá me ver. Estarei esperando ansiosa”.

Sempre que voltava Aretha saboreava aqueles poucos minutos como se fossem os últimos de sua vida. A cada novo presente via um espaço na estante ser preenchido. Desde então, acreditava ela, basta preencher todos que Nya será livre. E esta crença a manteve com espada em punhos, afastando qualquer outra conclusão de sua mente.

Quando Nya finalmente se virou, com o mesmo sorriso fino no rosto, Aretha retornou dos pensamentos. Não sabia como se expressar, mas tremia de expectativa.

“E agora, Nya, qual o próximo presente? Diga e vou buscar imediatamente para poder vê-la de novo”.

“Aretha, meu anjo, acredito que tenha percebido que não tenho mais espaço onde colocar seus presentes.” disse Nya, como se lendo os pensamentos da guerreira. “Além disso, matou quem de melhor havia em toda a região. Não existem mais combatentes à sua altura”

“Sim, eu sei Nya…” embaraçada pelo cumprimento, Aretha apertou o pomo da arma para tomar coragem “O que… o que acontece agora? Tenho medo de saber mas preciso. Você…” as lágrimas se empoçaram em seus olhos, embaçando a visão. Sua mão tremia como o medo que jamais sentiu de seus adversários. Até então sua confiança no final feliz a carregava. Agora esta ideia despencava em um abismo de insegurança e pavor de que nunca mais poderia ver a ninfa “Por favor, Nya... ”

“Aretha, acalme-se” Nya não parara de sorrir “Depois de tanto tempo você ainda age como na primeira vez que nos vimos. Meus encantamentos não são tão fortes assim” brincou, saltitando de um pé para o outro e agitando o dedos no ar em direção a Aretha.

“Por favor, Nya, preciso saber se o que acreditei esse tempo todo é verdade. Sei que lutei por um final inventado por mim mesma. Mas não existe mais pra onde correr, não é? Seria mais fácil te perguntar desde o início… só não sei porque não fiz isso.” as palavras saltavam da sua garganta em solavancos,e  cada vez que parecia não conseguir continuar Aretha apertava ainda mais a arma em sua mão “Acho… acho que a ilusão do objetivo me manteve focada, e o medo de encarar a verdade me deixou cega…”

Nya se aproximou de Aretha e tocou o seu rosto, e a guerreira imaginou que as nuvens preguiçosas de uma tarde não seriam tão aconchegantes.

“Você foi ótima, Aretha. Me trouxe tantos presentes e, com sua presença, tanta alegria. Contentamento que jamais senti antes. É uma boa garota. Me responda, Aretha” disse a ninfa, fitando a guerreira no olhos “Qual presente você quer de mim?”

Aretha congelou.

“Quero… quero ser sua! E que você seja minha! V… venha comigo, vamos viajar e ver lugares. Você me verá lutando e como é um combate de perto! Vam-”

“Aretha” Nya parou o clamor da outra “É um pedido ousado” ela sorria. “Uma humana e uma ninfa. Você sabe como somos não sabe? Porque ainda está aqui?”

“E… eu sei. Conheço as histórias” Aretha sentiu um arrepio percorrer sua espinha de cima abaixo, a cabeça ficar pesada, o estômago revirar e as mãos ficarem frias. Ela olhou para os próprios pés.

“Exatamente, Aretha. É como as coisas são, é o que causamos em vocês.” Nya pegou Aretha pelas mãos. "Você já é minha. Seus pés caminham em minha direção, e suas mãos lutam por mim. Seu coração é meu e sua cabeça” Nya olhou sobre o ombro para sua estante “Sua cabeça só pensa em mim”

Aretha sentiu um buraco em seu peito.

“Não posso fazê-la minha pois isso você já é”

Nya se aproximou e seus lábios, vermelhos e volumosos como as pétalas de uma rosa, tocaram os de Aretha. A guerreira, apesar de todo o sofrimento que destruía seu corpo e mente, não conteve a reação instintiva de se sentir realizada com o toque da amada. As lágrimas que escorriam copiosamente de seus olhos emolduravam o beijo.

“E tampouco posso me fazer sua, uma vez que já me dominou por completo” e, pousando os lábio sobre as mãos calejadas da guerreira, Nya desapareceu, e Aretha assistiu a ninfa se desfazer em pétalas, cantos de pássaros e cheiro de terra molhada. “Minha guerreira, não preciso de mais presentes, você me deu tudo o que tem. E agora lhe retribuirei.”

A angústia milagrosamente desaparecera, e Aretha se sentiu feliz de verdade. Na boca restava apenas a insinuação do toque. Em sua mão a espada parecia emitir um brilho próprio, e o cabo, apertado na palma, era macio ao toque. Ela deu um beijo na arma, e sentiu gosto de flores. Podia sentir a presença da amanda na lâmina, e o poder que agora possuía.

“Vou te mostrar todas as batalhas, meu amor…”

E ela soube que, onde quer que Nya estivesse, e como estivesse, ela estava sorrindo. Um sorriso fino, provocativo. Afiado como lâmina.

***

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