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[Conto] Voo de Asas Cortadas

Nunca em sua vida Magleth imaginou que seria tão feliz. Já era noite avançada quando se pegou refletindo sobre os últimos meses. Era tão estranho esse momento de sua vida. Dias pacatos, uma casa simples, um marido. Jamais em seus anos de viagens e aventuras pelos Reinos ela poderia imaginar que constituiria família. Ela tinha feito e visto tudo que qualquer mortal poderia almejar e mais. Pouco a pouco foi deixando para lá esses pensamentos, alisando a barriga onde seu primeiro filho esperava o dia de nascer. "Falta tão pouco... pode sair a qualquer momento", pensou. Essa ideia aquecia seu coração e mal podia esperar para ver o rosto de seu bebê. Finalmente decidiu dormir e deitou-se ao lado de Carsalor. De longe não era o homem mais bonito que conhecera, mas sem dúvida não poderia imaginar alguém melhor para estar ao lado. A casa, afastada de tudo e todos, era o mais distante possível dos palácios onde havia jantado com lordes, mas era infinitamente mais confortável. E assim ela dormiu. E sonhou.

Sonhou com sombras e barulho. Não conseguia ver nada nitidamente e tão pouco ouvir através da cacofonia. Porém, pouco a pouco, as sombras tomaram definição e ela percebeu que estava cercada de aves. Penas negras enchiam sua vista. As asas batendo eram como um tornado ao seu redor, e os bicos dos desgraçados produziam canção insuportável que rasgavam seus ouvidos. Mas ela não estava incomodada. Não. Tudo aquilo era dolorosamente familiar para ela. Tão familiar quanto a figura para os quais os corvos agora abriam passagem. O ensurdecedor corredor umbro por si só já poderia levar uma pessoa comum à loucura, mas mesmo isso ia para o segundo plano na atenção de Magleth. Tudo em que conseguia concentrar agora era não se ajoelhar. Porque, na sua frente, estava a Rainha.

O manto escuro, todo feito de penas, já havia cobrido os ombros de Magleth. Os pés e mãos, como pés de aves com garras curvas enormes, ofereceram suporte. E sua face sob o capuz, como um ninho de galhos finos sem olhos, boca, nariz ou qualquer característica digna de empatia, por muitas vezes tinha recepcionado Magleth nos portões da morte, apenas para fazê-la viver de novo. Por anos ela havia servido aquela figura. E, passado tanto tempo, não pensou que a veria novamente.

A Rainha se aproximou lentamente. O som de suas garras arrastando no chão era mais alto que o dos milhares de corvos voando ao redor, e faziam um calafrio percorrer toda a sua espinha. Quando uma mão ossuda, amarela, com unha curvas afiadas saiu do manto para acariciar sua barriga, Magleth tentou escapar. Mas não conseguia se mexer. As garras encostaram e a Rainha acariciou a pele esticada com tamanha delicadeza que parecia não poder facilmente perfurar carne e romper ossos com elas. E esse pensamento apavorava Magleth ainda mais, o desespero tomava conta de si e ela sentia seu rosto se retorcendo em desespero. O emaranhado de galhos olhou diretamente em seus olhos. Era tão perturbador quanto na primeira vez, a autoridade pesava como tonelada mesmo em um rosto sem definição.

"Você foi uma ótima serva, Magleth" a voz retorcia sua mente como embriaguez "Mas me abandonou. Não sei de onde tirou a ideia que uma relação como a nossa pode ser rompida assim." Magleth podia sentir cada músculo do seu corpo tencionando numa tentativa frustrada de se desvencilhar daquele abraço mental esmagador. "Tentou bater suas asinhas para muito longe e deixei se divertir por um tempo. Mas lembre-se que eu sou o seu ninho. E agora precisa voltar para casa, tem tarefas a cumprir". E a garras espetaram.

Magleth acordou arfando, cansada como jamais esteve. A escuridão do seu quarto era aconchegante , Carsalor ainda dormia do seu lado e todo o resto parecia normal apesar da umidade. Sua cama estava encharcada e por um momento o desespero tomou conta. Ela jogou as cobertas fora e levantou suas vestes. Mas não havia sangue, sua bolsa tinha estourado.

Carsalor acordou com o movimento brusco e logo o casal teve que iniciar os preparos para o parto, porque Magleth já sentia as contrações. O resto da noite foi de força e dor, mas ela estava feliz. Feliz como jamais esteve. Sabia que havia tido um pesadelo nesta noite mas não se lembrava de nada. Pensou em como sua nova família crescia e como tudo seria melhor daqui para frente. Pensava em sua fazenda, seu marido, seu filho, e não sentia saudades da vida de aventuras. Se pegou lembrando das batalhas, tesouros, poderes, viagens planares e barganhas divinas. "Não... não agora" pensou para afastar as lembranças indesejadas. E tão rápido quanto havia começado tudo acabou e o bebê chegou ao mundo. Ele chegou com sangue, suor, lágrimas e um choro agudo horripilante, porque um bebê humano não deveria piar.

Carsalor largou a criança assim que percebeu o que havia saído de sua mulher e Magleth ficou sem entender. Se contorceu para ver o corpinho estirado no chão e arregalou os olhos, levando a mão à boca em descrença. A luz fraca do nascer do sol iluminava a cabeça redonda que terminava num bico que agora estava aberto ao máximo, piando como louco. Toda sua pele era coberta por pequenos tocos de penas, até seus braços curtos em v, sem mãos, que mexiam de um lado para outro. Seus pés de galinha enrugados apenas adicionavam mais horror na mente já perturbada da mãe. Ela não podia crer no que havia saído de si.

Carsalor, em negação, olhava da criança para Magleth, e logo ela percebeu que o marido havia sacado de uma faca. Ele gritava que aquilo era fruto de maldições, que deveria ser morto. Era uma assombração que não pertencia ao mundo. Magleth tão pouco conseguia explicar mas ainda assim tentou proteger a criança quando a lâmina brilhou em rápido movimento. E ela não sentiu nada. Estava sobre o corpo do seu filho, ainda piando mas intacto. Não sentira a faca acertá-la. Porque não havia. Um flash de luz, algumas palavras mágicas proferidas e com um tombo seu marido foi ao chão, o corpo mole sem vida.

Magleth arriscou um olhar e não reconheceu as duas pessoas de pé no seu quarto. Eram dois elfos tinha certeza, orelhas pontudas, esguios e de estatura baixa. Mas as peles branco acinzentadas e os adereços de penas negras a encheram de terror. "Não se preocupe, querida, estamos aqui pela Rainha. Ela não deixaria uma serva desamparada, não é?" disse a elfa se aproximando dela com um sorriso sarcástico. Magleth tentou proteger o filho em seus braços mas estava fraca, e o elfo, sem falar nada, arrancou o recém nascido dela. "Criaturinha feia!" desdenhou, com uma carranca como face "A Rainha gosta de umas coisas bizarras. Anda logo com seu negócio, Phivaris". "Sim sim, Balpharis" disse despreocupadamente a elfa ao iniciar uma série de movimentos, os símbolos brilhantes aparecendo no ar enquanto se concentrava na magia "Querida, você é uma imbecil, desculpe falar. Abandonar tanto poder para viver numa roça parindo filhos. Tsc, me dá nojo" e com um movimento Magleth sentiu-se afetada por aquela força arcana poderosa. Seu corpo começou a se contorcer, ficar menor. Sentiu a face esticar, os membros diminuírem e as penas crescerem. Sua vontade foi apagada e sua mente aprisionada em barras psíquicas. Tentou voar por instinto, sem pensar, mas foi agarrada e aprisionada num gaiola física, de metal. Não conseguia pensar direito, nem tomar ações. Era como se não controlasse o seu próprio corpo, mas conseguisse ver e ouvir tudo que se passava ao seu redor.

Foi em sua forma de corvo, de dentro da gaiola, que ela viu a dupla de elfos a levarem, junto com seu filho deformado e marido morto, para o celeiro. Cruzaram a plantação pequena que ela e Carsalor cultivavam juntos e sentiu que choraria se tivesse controle algum sobre a nova forma. Viu o elfo olhar para o espantalho, comentar algo e rir maleficamente. Não entendia direito as palavras, e apenas se encolheu na gaiola quando a elfa, segurando ela, aproximou a face, falou algo e riu também.

No celeiro ela viu o elfo colocar Carsalor e o espantalho lado a lado, arrancar o coração do marido num ritual sombrio e afundá-lo no peito do espantalho. E o boneco de pano e palha tomou vida, se levantou e começou a perambular sem rumo. Os elfos se deleitaram, rindo e falando com ela, apontando para o espantalho. Ao se cansarem eles deram ordens para Carsalor, zombaram mais uma vez dela e deixaram o local numa revoada de penas.
***
Tudo era nebuloso. Magleth ia e vinha em lapsos de consciência. Quanto tempo se passara? Dias, semanas, meses? Ela não sabia. Mas sabia que sentia algo na barriga. Sentia a dor do nascimento de novo e de novo e percebia que estava botando ovos. Um, dois, três e mais a intervalos regulares. Ela chocava cada filho e os via serem retirados de seu ninho, piando como loucos, pelas mãos desajeitadas do espantalho que havia sido seu marido. Ela via seu filho, o verdadeiro, já maior e ainda deformado, meio humano e meio corvo, com penas negras compridas, acorrentado num canto. A criança ainda vivia e piava em choro quando Carsalor lentamente arrancava uma pena dele e a espetava num dos corvos. O movimento era caótico e cheio de ira, e a feição macabra do boneco deixava tudo pior. Ao serem espetados os corvos se desenvolviam em velocidade sobrenatural e voavam. Voavam para longe. E ela sabia, no que ainda restava de lembrança da antiga vida que levara, que um dia uma daquelas aves havia a visitado e oferecido poder. E ela aceitara.
*****

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2 comentários:

  1. Sem palavras pra descrever o quão de cara eu tô com essa história maravilhosa

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    Respostas
    1. Muito obrigado! O passado às vezes é resistente em nos esquecer...

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